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Biografia resumida de Chinita Ullmann

Texto Extraído do Livro "A Dança Teatral no Brasil" de Eduardo Sucena

Chinita Ullmann O inicio neste número uma nova série, cuja finalidade é dar a conhecer à nova geração de bailarinos e balletômanos, as figuras marcantes que trabalharam arduamente para a implantação da dança teatral, em nossa terra. Vencendo obstáculos e cepticismo sem conta, esses heróicos desbravadores realizaram verdadeiro trabalho de catequese, conseguindo paulatinamente a concretização de seus ideais; tornando-se portanto, merecedores de nossa admiração, respeito e reconhecimento.

Entre esses pioneiros, devemos incluir o nome de Chinita Ullman, como a primeira bailarina patrícia a adotar e transmitir o estilo moderno. Chinita desempenhou um papel preponderante em sua época, no mundo artístico paulistano que, empenhado em movimento de renovação das artes plásticas, acolhe com entusiasmo o novo estilo.

Nascida em Porto Alegre em 1904, Frieda (seu verdadeiro nome), desde cedo manifestou seus pendores artísticos. A música e a pintura fizeram parte de sua educação, porém, a maior paixão era a dança. Devido à inexistência de cursos de dança, somente aos quinze anos de idade e na Europa, teve seu primeiro contato com a arte coreográfica.

Matriculou-se na escola de Mary Wigmann, em Dresde (Alemanha), sentindo que aquele era o estilo que mais se adaptava a seu temperamento e personalidade. Chinita (tratamento usado no sul) ali permaneceu vários anos, fazendo parte do grupo formado pela eminente mestra. Devido a seu espírito dinâmico e fértil imaginação criativa, desliga-se do conjunto, iniciando brilhante carreira como "recitalista", tendo então oportunidade de apresentar coreografias próprias.

Tendo como partenaire Carletto Thieben, exbailarino do Scala de Milão, percorre com êxito inúmeros países, em sucessivas tournées.

As críticas são consagradoras.

"As danças de Chinita Ullman são vigorosas, apaixonadas... completo domínio do corpo..." (Berlim) "O reconhecimento mais completo do valor dos intérpretes. Público excepcional... Ótima técnica, critério moderno... um estudo acurado e preciso, uma compreensão perfeita... fidelidade à inspiração musical... esculturalmente sugestiva... (Milão)

Consagrada nos grandes centros artísticos retorna para colher os aplausos de seus compatriotas, percorrendo o Brasil de norte a sul.

"Magnífico espetáculo, novo, moderno, inédito no Rio até ontem".

Participa como "artista convidado", na temporada lírica de 1931 do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Excursiona por toda a América Latina. Novos compromissos levam-na de volta ao velho continente, consolidando sua reputação. Volta definitivamente em 1932, aqui fixandose e fundando sua academia, associada a Kitty Bodenheim. A luta contra os preconceitos existentes foi árdua, porém, com o trabalho honesto e perseverante das duas mestras, o curso tornou-se conceituado e freqüentado por jovens da melhor sociedade.

"Um véu negro encobria a mentalidade burguesa de S. Paulo. Chinita Ullman e Kitty Bodenheim abriram os horizontes, lançaram idéias novas, inculcaram em nosso meio a necessidade da dança".

As duas artistas apresentaram-se também em inúmeros recitais.

"Gostei muito de ver Chinita Ullman dançar. Gosto principalmente porque ela soube realizar com muita integridade os dons coreográficos que possui. Orientada inicialmente pela dança expressionista, e mantendo ainda profundos traços dessa estética, ela soube, no entanto, conformar a lição recebida às suas próprias possibilidades e fazer da sua pessoa dançante um gesto de harmonia inefável". (Mário de Andrade - Diário de S. Paulo, 19 de julho de 1934.).

Segundo depoimentos de pessoas que acompanharam de perto o desenvolvimento da dança no estado paulista, foi graças aos ensinamentos de sua escola que, em 1940, Vaslav Veltchek conseguiu apresentar, após três meses de existência, um Corpo de Baile, na temporada lírica do mesmo ano. A maior parte dos componentes era oriunda daquela escola.

Participando intensamente da vida artística paulistana, Chinita angariou por sua inteligência e simpatia, a amizade de renomados artistas: Lasar Segall, Gregori Warchavchik, Gobbis, Tarsila do Amaral, Antonieta Rudge e outros. Sua casa era o ponto predileto de reunião desses artistas; ali foram planejados e elaborados os estatutos para a fundação da SPAM (Sociedade Pró- Arte Moderna), entidade inaugurada em 23 de novembro de 1932, fazendo Chinita parte da diretoria. Os movimentos vanguardistas, como a Semana de Arte Moderna, tiveram em Chinita, uma exaltada colaboradora. Foi também a primeira professora de Expressão Corporal, da Escola de Arte Dramática, dirigida por Alfredo Mesquita. Fascinada por nossos temas folclóricos, dos quais adquiriu profundo conhecimento, através da orientação de seu amigo Mário de Andrade, transpôs vários deles para a dança. "Quadros Amazônicos", escrito especialmente para a artista, por Francisco Mignone, que lhe concedeu a exclusividade coreográfica, foi considerado uma de suas melhores composições coreográficas. Os conhecidos personagens do nosso folclore - o Saci, a Caapora, o Urutau e o Boitatá, surgiram magistralmente interpretados por Chinita. As "Lendas Brasileiras" de Souza Lima, foram também por ela coreografadas.

Além da direção da escola, prosseguiu sua carreira como bailarina, até 1954, quando, ao lado de Décio Stuart, apresenta memorável espetáculo de despedida.

Encerrou definitivamente suas atividades artísticas e desde então passa a maior parte do tempo em sua chácara, dedicando-se a seu hobby predileto: o cultivo de orquídeas. Quem teve seu nome vinculado à beleza, que melhor passatempo poderia ter escolhido?

(E. Sucena, Jornal do Ballet, maio de 1975).

Chinita Ullman, enviou-me a seguinte carta:

"Prezado Eduardo, saudações. Li com muito interesse e reconhecimento o seu artigo sobre a minha pessoa, primeiro de uma nova série, "Nossos Valores", no Jornal do Ballet, de maio. Obrigada, Eduardo. Tenho muito gratas recordações daquele tempo, principalmente de S. Paulo, apesar das dificuldades enormes. Estas dificuldades com os bailarinos, coreógrafos e alunos de dança, continuam quase as mesmas hoje em dia, não é verdade? Mas, isso não importa tanto. O que importa é levar adiante o trabalho da "implantação da dança teatral em nossa terra". Que nunca falte a vocês, colaboradores do Jornal do Ballet, o idealismo, a energia e constância que este trabalho exige, dando estímulo e orientação aos jovens e consolo e compreensão aos velhos bailarinos.

Sua grata
Ass. Chinitta Ullman".

Meu relacionamento com Chinita datou de abril de 1975, quando solicitei uma entrevista. Admirador da artista, passei também a admirála como ser humano.

Culta, modesta, perfeitamente lúcida apesar de septuagenária, cativava a todos que dela se aproximavam. Mantivemos longas palestras, de grande utilidade para meu empolgante mister - pesquisar o desenvolvimento da dança brasileira.

Foi com grande pesar que recebi a notícia de seu falecimento ocorrido em 30 de maio de 1977.

Como era seu desejo, o corpo foi cremado e as cinzas transladadas para seu torrão natal. A Chinita Ullman, minha gratidão e saudade.


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