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Lembranças da vida de Hedwig Textor Trein

(texto redigido em 1937 em Alemão, com tradução Erna Krahe)

Escrito por Hedwig Textor Trein a partir de 06/03/37, aos 90 anos de idade)

(Tradução de Erna Krahe [as observações da tradutora encontram-se entre colchetes])

Hedwig Textor Trein

Introdução

Não sei se vai interessar aos meus queridos descendentes ler sobre a minha vida, sobre o meu destino. Peço que estas páginas sejam entregues à minha amada e única filha Alice Trein Hoffman, a quem eu deixo estas lembranças.

Fui animada a escrever sobre o meu passado por algumas de minhas melhores amigas.

Nasci dia 3 de setembro de 1847 no assim chamado "Bluecherschloss" em Schoenwalde. Este, que antigamente era um castelo, era então o "Amthaus" de Schoenwalde, na Pomerânia, e meu pai era o Amtmann. Meu pai era um homem alto e bonito. Um quadro pintado da minha mãe e pai estão ainda hoje em Vila Clara, na casa de meu cunhado, Viggo Thompson. Embora eu seja a única filha ainda viva, ele não quis me dar este quadro após a morte de minha irmã Clara. Ele o prometeu à minha sobrinha, Eugenie Heuser, nascida von Schwerin, mas esta agora também já faleceu. [Viggo Thomson era dinamarquês, casado em segundas núpcias com Clara Textor von Schwerin].

Sabe-se que minha mãe [Wilhelmine Johanna Textor] descendia de uma família muito boa, família Richter de Berlim. Sua educação foi muito boa. Estudou línguas, música, declamação e trabalhos manuais, os quais mais tarde, aqui no Brasil, a ajudaram muito a superar os golpes do destino. Parentes da Alemanha mandavam seguidamente jóias, roupas, toalhas de linho de damasco, etc. Após a morte de meus pais não se teve mais notícias deles. Uma conhecida que viajou para a Alemanha contou que contaram a ela que a viúva rica, irmã de minha mãe, tinha caído nas mãos de interesseiros e que a fortuna tinha desaparecido, (o que foi bom).

Meu pai, Adolf Friederich Textor, descendia de família da Senhora Rath Goethe, que era mãe de Goethe. Na Alemanha só existia uma família Textor. Desde pequena eu me orgulhava de ser descendente da família da mãe de Goethe, de ser também uma Textor.

Não sei porque os meus pais emigraram, pois eles tinham herdado um "Landgut" (fazenda) na Pomerânia. Com certeza foi difícil para o pai ser agrônomo, pois sofria muito de feridas abertas nas pernas. Ele sempre contava que com 17 anos teve que servir na invasão da Rússia por Napoleão. Felizmente entrou só no final da campanha. Com o uso das botas muito pesadas abriram feridas, que mesmo com muito cuidado sempre voltavam a abrir após pouco tempo.

Agora, em várias séries independentes, vou tentar descrever as minhas memórias, casos tristes assim como casos alegres, e outros acontecimentos de minha longa vida, iniciando na série número l.

SERIE NUMERO 1

A minha lembrança mais antiga de criança de 3 anos e que em Schoenwalde tive uma baba de nome "Tine", estava sentada com ela num banco vermelho, ela vestindo um avental listrado amarelo. O banco virou e machucou a unha do meu dedão do pé que ficou dependurada num fio de pele. (Esta unha do dedão do pé cresceu endurecida e transmiti! Este defeito aos meus filhos).

Não sei como foi a partida para a viagem. Só sei que éramos 6 irmãos:

Theodor sofria do coração e devia ir para clima mais quente.

Sei que em Hamburgo fugi, alguém me carregou, sempre perguntando pelo nome do meu pai, felizmente encontrei os meus.

Embarcamos no veleiro. Alem de nossa família tinha mais três famílias que também seguiam para Santa Cruz: Kliemann, Verlang e Neumann. Os descendentes destas famílias ainda hoje são "cidadãos" bem situados lá.

O capitão do veleiro me deu de presente um saquinho de pão torrado, que eu carregava sempre comigo. Lembro bem que meu irmão Theodor morreu na viagem. Todos os marinheiros e oficiais fizeram fileira, o Pai segurou a Mãe que chorava muito, o capitão rezou e o meu irmão, envolto em muitos lençóis, foi baixado para dentro do mar. Tive a impressão que a bandeira do navio naquele momento caiu.

No dia 7 de setembro de 1851 ancoramos no Rio Grande. Este feriado nacional naquela época era festejado com "Mascarados nas Ruas". Estes mascarados, com todo o resto do povo, vieram à praia para apreciar a chegada do veleiro, o que era raro naqueles dias. Minha mãe ficou muito assustada com as mascaras, porque muitos mascarados estavam fantasiados de macacos, com barba de pau colada nas cabeças e no rosto. Mãe achava que tinha chegado à terra de loucos. Mas bem depressa seguimos viagem ate Porto Alegre.

Aqui encontramos dois senhores que falavam alemão e cuidavam dos emigrantes. Eram o Ministro Sinimbu e Muritiba. Ao meu pai e as outras famílias foi dada a terra gratuitamente nas colônias praticamente desconhecidas de Santa Cruz, que provisoriamente eram administradas pelo Senhor Buff.

Na assim chamada "Picada Nova" perto de Sinimbu ficavam as colônias que receberam. Meu pai e irmão Emil seguiram para lá a cavalo e encontraram uma mata virgem profunda. Quando chegaram lá para ver a terra, veio uma chuvarada de dias. O riozinho Rio Pardinho transbordou, inundou toda aquela terra, Meu pai e Emil ficaram 2 dias e uma noite trepados em arvores altas. Quando desceram, agradeceram um tal "presente grego", voltaram a cavalo a Rio Pardo enquanto os outros ficaram lá e foram muito felizes como colonos.

Em Rio Pardo naquela época só havia duas famílias alemãs: Nicolau Hasslocher e Luchsinger que eram os proprietários de um armazém no assim chamado "Passo". Hasslocher era o avô de Dr. Germano Hasslocher e de Ernesta Haensel, cujo marido, o deputado Frederico Haensel, foi assassinado no jardim de sua casa pelas costas, na rua da Figueira (Cidade Baixa) na revolução de 1889. As cantoras Amália Iracema Ferrari e Heidy Brugelmann eram suas filhas, assim como também a Senhora Bahlke. Ao longo dos anos, tivemos sempre uma amizade sincera. Os Luchsinger que ainda hoje vivem em Porto Alegre são descendentes deste casal de Rio Pardo. Estas duas famílias eram bons amigos de meus pais.

Como Rio Pardo naquela época era uma cidade bem brasileira e os meus pais não falavam o português, não havia como manter algum negócio para sustentar uma família com 5 filhos. Tiveram que voltar para Porto Alegre apos grandes prejuízos financeiros.

O governo daquela época, liderado pelo Ministro Sinimbu, iniciou aqui uma grande criação de ovelhas Merina. O secretario de estado, Sr. Cidade, ofereceu ao pai a direção deste empreendimento. O governo comprou, na estrada "Mato Grosso", uma grande chácara de Manduca Nunes, que e hoje a Chácara das Bananeiras, Posto Policial. O Morro da Policia pertencia também a chácara.

O governo aplicou muito dinheiro neste empreendimento. Construiu um estábulo maciço grande e alto e outros edifícios. Importou um grande lote de ovelhas caras, Merino, maquinas, arados, ferramentas para plantações. O empreendimento foi bem, mas acontece que apos a lavada e a tosa das ovelhas ninguém sabia o que fazer com a lã. Depois de anos de prejuízos, o governo resolveu acabar com a criação, torrou as ovelhas por uma ninharia para se livrar delas. As construções foram abandonadas por muitos anos ate que a policia tomou conta, estando lá ate hoje. Foi uma lastima que este empreendimento tenha sido prematuro.

Tenho ainda bonitas lembranças da infância e da juventude da chácara, mas contarei em outra serie sobre elas e sobre a minha magoa de não ter podido freqüentar colégio alemão, pois naquela época não o havia. Meus irmãos mais velhos já tinham ido ao colégio, já tinham sido alfabetizados na Alemanha. A nossa vida na Chácara e os destinos de cada um contarão isoladamente.

Nesta serie só quero contar ainda o seguinte: por imposição de meu cunhado, marido de Clara, Barão Carl von Schwerin, os meus pais e eu nos mudamos para Santa Cruz. Von Schwerin era uma pessoa maravilhosas, que sempre lembrarei com carinho. Sempre foi muito dedicado a mim e a meus pais. Por isso amo os seus descendentes que vivem em Santa Cruz e Porto Alegre, não tanto por merecerem este meu amor, mas em memória dele e de minha irmã Clara.

[Observação da tradutora: a filha de Clara e Carl von Schwerin, Eugenie von Schwerin Heuser, casou com Philip Heuser, sendo os pais de Alice Heuser Ertel; esta casou com Max César Robert Ertel, sendo os pais de Erna Ertel Krahe, Ilka Ertel Kruel e Walther Ertel.]

SÉRIE NÚMERO 2

1/4/37

A RESPEITO DOS PARCOS CONHECIMENTOS ESCOLARES - OBTIDOS SEM ESCOLA ALEMÃ

Durante a minha infância dos anos 1852 a 1860, aqui no Brasil, não havia colégio alemão em Porto Alegre, assim como também não havia igreja, pastores e comunidade. Muito, muito mais tarde, por intermédio do Sr. Friderich Molz (avô do construtor Pick [e bisavô de Ruth Pick Schwuchow e de ... Pick Albrecht]) conseguimos a formação de uma comunidade evangélica e um pastor veio da Alemanha.

Nesta época os colégios brasileiros eram muito primitivos. Meu primeiro colégio, que ficava na Rua da Igreja [Duque de Caxias] era particular, com uma Dona Maria Pitta, avô do médico que agora vive aqui, Dr. Pitta.

Eu, como única alemã, quase não recebia atenção e muito menos me incluíam nas aulas fraquíssimas. Lembro-me que quando, como grande novidade, começaram a ensinar as meninas a bordar e a fazer tricô, não me convidaram a participar. Mas eu fiquei prestando muita atenção, já tinha visto nossa mãe bordar e tricotar muito. Faziam aquecedores de pulso com "Capuchãosinhos" de crochê. Não agüentei e disse que também sabia fazer isto. Com ironia a professora disse: "Isto eu quero ver!" E sem auxilio, que ela me negou, sentei junto com as outras - pensei bem como a mãe fazia - enrolei o fio nos dedos e tricotei a primeira fileira, bem como as outras o faziam. Todas ficaram admiradíssimas e eu tive uma satisfação muito grande.

Enquanto freqüentei o colégio todos os dias se copiavam os mesmos dizeres que estavam pendurados na parede, não se fazia jamais algum ditado ou qualquer outra coisa. O colégio parou muito tempo quando nossa professora viajou para São Paulo para visitar parentes.

Finalmente abriram um colégio na Rua da Igreja, no lugar do "Colégio Sevigne" de hoje. Mas a casa era pequenina e a nossa professora, D. Henriqueta Garoidort, tinha que lecionar as alunas mais adiantadas que chamávamos de "Decrionas". Minha professora chamava-se Glicéria Torelli e a irmã Fermina Torelli, as bisavós dos Torelli que vivem em Porto Alegre. Foi lá que aprendi o pouco que pude e foi só o que tive de colégio, mas fazia tudo com amor e entusiasmo. A distância da "Chácara" ate o colégio era grande e dificultava tudo muito, pois tinha que ficar em internato na cidade. Acho que por isso a coisa não durou muito e as aulas muito fracas não me ensinaram muito.

Toda a minha vontade, porem, era aprender o alemão e isto sem colégio. Isto eu consegui da seguinte maneira: os meus pais se davam muito com a Família Engel. Ele era o pão da viúva Tollens e da falecida Sra. Jenneret Bahrensdorf. Devo ter dito a ele como eu gostaria de aprender alemão. Ele tinha uma chapelaria na Rua da Praia. Um dia ele me presenteou uma cartilha do primeiro ano; um outro livro de canções alemãs; mais um livro muito grosso de pequenas historias alemãs; e outro que se chamava "Heirich von Eichenfels veio conhecer a Deus". Minha alegria era tão grande que tive a impressão de ter recebido uma metade de mundo!!!

Mutter (minha mãe) ensinou-me as letras góticas e começou com leitura. Daí em diante eu estudava todos os dias, horas a fio. Quando cansava, abria o livro de canções, das quais minha mãe já tinha ensinado muitas. Ela me ensinou todas as canções que ainda não conhecia e ate hoje, aos 90 anos, ainda sei as primeiras estrofes e as melodias de quase todas as canções alemãs. No passar dos anos fui aprendendo mais algumas e ate hoje ainda gosto de cantá-las e acompanhar com citara. Lá na Chácara tinha uma alameda muito grande de bananas e lá eu cantava por horas as minhas canções, completamente só. Mais tarde, lia os contos. Como eu adorava ler um por um, eram maravilhosos, não havia um que eu não gostasse. Nunca os esqueci. Lamento que estes livrinhos não existam mais.

E então chegou a hora de Malvine e eu fazermos a confirmação. Acho que foi em Hamburgo Velho (Hamburger-Berg) que morava o pastor Haespert. Na lembrança de criança ficou que ele devia ter um defeito num pe e rengueava. Este conhecia um professor de alemão chamado Albrecht, que morava na Dr. Flores, que hoje fica em frente à Leopoldina. Este Sr. Albrecht devia dar a nos duas e mais 12 confirmandos uma lição por semana. Seis semanas freqüentamos estas aulas, muito fracas, insuficientes. Um dia veio o pastor Haespert e, na mesma casa onde tivemos as aulas, colocaram duas velas de um lado de um crucifixo, e pronto, fomos confirmados.

Malvine recebeu a frase de Bíblia: "Dein Wort sei meines Fusses Leuchte" - "A tua palavra seja a luz para os meus passes".

Eu recebi as palavras: "Rufe mich an in der Not" - "Apela a mim quando tiveres necessidade".

Nunca esqueci este dizer da Bíblia e o utilizei em mementos de desespero. Meus outros irmãos já tinham sido todos confirmados na Alemanha.

Meu irmão Emil foi como aprendiz trabalhar com o construtor Kupplich (avô de minha atual vizinha). O irmão Carl ajudava o pai na chácara e, ao derrubar um pe de marica, um galho rasgou-lhe o braço e danificou o nervo de um olho. Por isto teve de usar sempre óculos escuros. Mais tarde ele casou com uma brasileira. Anos depois ele se mudou para Candelária, onde faleceu cedo. Anos depois, Malvine tomou para si a Alzira, Jeny Heuser o menino, que logo faleceu e Mercedes ficou comigo, ate o dia em que se casou com von Wollwitz. Mais tarde falarei novamente a respeito destas crianças [filhos de Carl].

SÉRIE NÚMERO 3

COMO NASCEU O MEU GRANDE AMOR PELA MÚSICA

Para contar isto, tenho que contar primeiro sobre a construção do Teatro São Pedro, o qual foi construído pelo engenheiro Philipp von Normann (o mesmo que construiu o grande "Baillante", que mais tarde foi substituído pelo "Auditório Araújo Vianna" [e este, por sua vez, pelo Palácio Legislativo de hoje]).

O casal Normann era muito amigo de meus pais e assim, como não tinham filhos, a minha irmã Clara (Textor von Schwerin) passava muito tempo com eles. Para a inauguração do teatro, o governo conseguiu trazer para cá uma Companhia de Operas muito boa. Não me lembro de ter visto uma melhor aqui em Porto Alegre. O nome do tenor era Lelmi e o da "primadona", Baietti. [os nomes não são bem legíveis] Como construtos do Teatro São Pedro, o Sr. von Mormann sempre tinha um camarote reservado e Clara sempre acompanhava o casal. Foi uma grande sorte para nos, pois Malvine e eu às vezes também podíamos ir, nos revezando. Desta forma vi e ouvi "Trovador", "Norma", "Lucia de Lammermor"! Quando vi pela primeira vez o "Trovador", o meu entusiasmo era incrível!! Este entusiasmo pela musica não me deixou mais, durante os meus 90 anos afora. Naquela época eu devia ter 8 a 9 anos. No dia seguinte não consegui pensar em outra coisa, acreditando também saber as melodias. Corri para o pe do Morro da Policia, que não ficava longe, subi numa pedra e cantei, cantei com toda força as melodias, sempre imaginando o decorrer da opera. Quis tanto aprender musica, mas não era possível. A minha mãe tinha uma voz muito bonita. Ela sempre cantava passagens de operas e operetas para mim e minhas irmãs. Ela também declamava tão bem. Eu escutava com adoração e aprendi as melodias e as que não pude pegar, aprendi mais tarde na vida. E ate hoje sei quase todos os inícios das operas e melodias de canções, como também as palavras.

Agora vem o meu inicio na musica. Lá no "Morro do Cemitério" morava uma família nossa conhecida - Guedes. A filha deste casal, Paulina Guedes, tocava guitarra. Ela se dispôs a me vender o instrumento por 5.000 reis, achei caríssimo, e me ensinar a tocar. Fui tomar as aulas com ela. Aprendi alguns acordes de acompanhamento e já consegui acompanhar suas melodias (modinhas). Um dia fui contente para a aula, achei a casa fechada, vizinhos me contaram que Paulina tinha se dado um tiro e morreu. A família tinha se mudado e Paulina não estava mais ai, nem a guitarra! Acabou o meu aprendizado. Muito triste voltei para casa e meus estudos acabaram.

Anos se passaram. Através da família Normann conheci uma amiga de nome Celeste de Castro. Eram vizinhos da família Normann, moravam na casa onde hoje e o "Sanatório Dias Fernandes". Do outro lado da rua, vis-à-vis, eram os fundos do Teatro São Pedro. O Sr. Castro, um rico português, Dona Izolina, uma francesa, sempre foram muito queridos comigo. Celeste, filha única, inteligente e alegre, tocava piano muito bem, para as condições daquela época, Fui convidada seguidamente por eles. Mais tarde, passaram algum tempo conosco em Santa Cruz. Celeste me ensinou um pouco de piano e, principalmente, as canções brasileiras: Meu Anjo Escuta, Meia-Noite no Bronze da Torre, Tão Longe de Mim Distante, Do Poeta a Flor Querida, e muitas outras mais. Tudo modinhas em voga. Ela acompanhava e ficava muito feliz, achando que já sabia muita coisa. Passávamos muito tempo juntas cantando e tocando piano.

Mas um dia tive que me mudar, com Mutter, para Santa Cruz, a pedido de Clara e Carl von Schwerin, que lá foi o primeiro Diretor da Colônia. Clara esperava o primeiro bebe. Nasceu Jeny [Eugenie von Schwerin] Heuser. Nossa mãe passou algum tempo lá e voltou para Porto Alegre quando Clara estava mais forte. Eu ainda fiquei por algum tempo em Santa Cruz. Lá conhecemos a família Lewis, ela chamada Dona Carlotta. Ele americano e ela da família Marechal Menna Barretto. Ela era muito rica. Todas as terras ao redor de Santa Cruz e o campo para "Cannabarro" pertenciam ao seu pai. Ela era muito bonita e tinha 4 filhas, mas era muito má para os seus escravos. Mais tarde se mudaram para Porto Alegre e compraram uma casa luxuosa. Mais tarde, juntamente com Celeste, os encontrei varias vezes. As mocas lindas casaram em seguida, a primeira com o Dr. Brandão, a segunda com Gustavo Leyvaud, secretario do correio, a terceira com Ernesto Alves de Rio Pardo e a ultima, com Francisco Falckenbach. Anos depois, fiquei sabendo que as quatro perderam a fortuna que tinham herdado do pai, perderam todas as terras, etc. Dona Calota faleceu na casa de uma neta natural, num cantinho de uma casinha de colonos, em completa miséria. Que destino!!

Mas ainda em Santa Cruz, o pai, o americano Lewis, construiu a primeira igreja. O vigário dava aulas de piano para as meninas nas quais eu, por ser muito amiga, pude tomar parte. Do vigário aprendi as notas e o seu valor, assim como os nomes em italiano e português. Hoje só existem descendentes de Leyvaud, os quais possuíam sangue francês, estudaram bastante musica e outras matérias, sendo bem sucessidos na vida. Depois de algum tempo voltei para Porto Alegre e as minhas aulas de piano pararam novamente.

Celeste e eu continuávamos muito amigas. Visitávamos seguidamente a família Cordeiro. Ele tinha uma Escola de Dança, bem em frente da casa de Celeste, onde hoje fica o grande Arquivo Publico. O Sr. Cordeiro tinha 5 filhas e todas com facilidade para a musica. Por muito tempo, a mais velha, Chiquinha Cordeiro, era a única professora de piano. A segunda filha, Candinha, era muito bonita e também tocava piano muito bem, o que nesta época era uma raridade em Porto Alegre. Que horas lindas passei na casa da família Cordeiro! Seguidamente, em trajes de gala, íamos a "Soirée" no "Brillante". Oh! que beleza!

O presidente do estado era um senhor de idade, Cirne Lima. Era viúvo e se enamorou de Candinha. Claro que a única filha dele era muito contra. O nome dela era Panchita. Mas eles conseguiram que ela mudasse de opinião, com valentia e muito jeito. Tornaram-se mais tarde boas amigas. Houve um grande casamento; Celeste e eu, como amigas, também fomos convidadas. Que felicidade! Minha mãe desmanchou um lindo vestido de seda, ainda da Alemanha, e fez dele um lindíssimo vestido de gala para mim. A querida mamãe tinha jeito para fazer o que quirera, mesmo como a minha querida Alice. Recebi ainda, para a festa, um pequeno rosário e, de mamãe, uma cornetinha de ouro. Oh! Eu me achava a mais linda e a mais final. O que me impressionou muito foi que, quando voltamos da igreja, levaram a noiva de véu, grinalda e vestido do mais fino cetim (atlas) ao piano e ela tocou o Hino Nacional de Gottschald. Havia uma mesa enorme de doces e dançamos.

O casal se mudou para o palácio, que não era tão bonito como o de hoje. O atual Dr. Cirne Lima, casado com Judith Masson, e filho deste casamento. Chiquinha viveu seus últimos dias em sua casa. Muitos anos após, em Torres, contei à Dona Judith que estive no casamento de seus pais. Ela se admirou muito.

A terceira filha dos Cordeiros, Luiza casou com um Brochado, que era o antigo sócio de Willy. A mais moça casou com "Poeta", aparentado com a família von Drug.

Da casa de Celeste tive a oportunidade de ver D. Pedro II e o príncipe Gastão, na praça. Eles passaram por aqui durante a Guerra do Paraguai. Isto e agora passado.

Quando mudei com os meus pais e Emil para Santa Cruz, conheci um moço que era completamente diferente de todos os outros moços que conheci em minha vida. O meu querido e bom Carlos [Trein Filho]. Dedicava a sua vida só aos estudos e ao trabalho, isto me encantou. Adorava os parentes e tinha toda a dedicação para eles, todos os outros deixava completamente à vontade, nunca se intrometendo. Sempre evitou mocas e senhoras. Só ao amigo Schwerin ele dava toda a atenção e tinha muito respeito por ele. Schwerin reconheceu o seu trabalho, levou-o junto para auxiliar nas medições de terras. Dele ele não era só empregado, mas também companheiro, ate a prematura morte de Schwerin.

Carlos, por toda a vida, foi sempre um homem correto em todos os atos. Ele sabia tocar citara com muito sentimento, e com isto o meu grande amor pela musica renasceu. Ah! Eu queria muito aprender a tocar também. Mas como? Ele tinha vergonha de me ensinar, eu tinha vergonha de pedir que me ensinasse. Mas com o passar do tempo tornamo-nos sempre mais íntimos, e eu pude começar a tocar na sua citara. Carlos viajava muito com Schwerin , fazendo as medições de terra e como ficava muito só, pude aproveitar a citara bastante, aprendi sempre mais. Mas agora veio a vontade de ter o meu próprio instrumento. Mas como? Ouvi dizer que na Casa Gertum, de Porto Alegre, se podia comprar uma citara. Quando mamãe veio me visitar, ficou sabendo do meu grande desejo. Fui com ela para Porto Alegre e ela me deu "1 onça" em ouro, mais ela não devia custar. Fui a Casa Gertum, na Doca (era o pai de Emil e Hugo Gertum, e da senhora Luederitz) e ele me participou que o preço era de 40.000 reis. Muito triste voltei para casa. Estávamos hospedados na casa da mãe de Celeste - Dona Izolina. O pai de Celeste já tinha falecido. Sentei-me num canto chorando lagrimas muito amargas por causa da minha citara. Dona Izolina perguntou porque estava chorando, eu contei minha historia. Ela saiu do quarto e quando voltou disse: "Guarda a tua" onça "para outra coisa; toma isto e vai buscar a citara".Eu poderia jubilar, cantar e dançar, como lá na Chácara, quando cantei o "Trovador" ao pe do Morro da Policia. Feliz, busquei a citara, ainda recebi um caderno de aulas, argola e notas, estava radiante e voltei para Santa Cruz onde estudei todos os dias por horas a fio.

Quando Carlos voltou, admirou-se muito dos meus progressos. Schwerin participou da alegria e mandou vir uma grande quantidade de partituras para citara da Alemanha. Carlos mandou vir mais partituras para duas citaras, ele também escreveu varias. Passamos a tocar os nossos duetos. Eu tinha que estudar e praticar, mas Carlos tocava tudo na hora. Como estas horas foram felizes!

Os anos passaram. No dia 4 de agosto de 1870 foi o nosso casamento, como também o de sua irmã Emma com Oscar Kannstatt. Emma viajou em seguida para a Alemanha e a mamãe Trein nunca mais a viu. Apesar de casar em agosto, tive o casamento mais feliz que se pode imaginar com o meu querido Carlos, ate a sua morte. Nunca, nunca mesmo ele teve uma palavra áspera para mim. Amorosamente protegeu a nossa família ate o fim. Honra e gratidão são os sentimentos que devo a sua lembrança.

Quando a nossa situação melhorou, me presenteou um lindo e novo piano, o qual devia servir também para as nossas duas filhas, Emma e Alice, estudarem. Carlos sabia tocar também violino e eu estudava piano com muito entusiasmo. À noite tocávamos juntos muitas coisas de Schubert, Hayden, Strauss, etc. As nossas filhas estudaram piano com o prof. Keber e as duas tinham tanta facilidade que em pouco tempo sabiam tocar melhor do que eu.

Não sei porque parei de tocar piano e só anos mais tarde, quando as meninas já estavam na escola normal, procurei a citara novamente. Quando minha mãe se mudou com os netos órfãos Alice e Irma Meinhardt para nossa casa, Alicinha Meinhardt tocava bem bandolim, que era moda na época, e cantava modinhas. Compramos na Casa Voigt muitos cadernos de musica para citara e bandolim, para tocar juntas. À noite, quando todos na casa estavam dormindo, íamos para a sala mais distante e lá fazíamos musica ate altas horas. Era uma delicia e aproveitávamos bem estas deliciosas horas. Quando deixamos Santa Cruz abandonei novamente a minha citara.

Passaram anos de novo e quando mudei com Carlos para as colônias italianas, onde o trem de Carlos Barbosa para Alfredo Chaves estava em obra, tendo Carlos sido o chefe de muitos engenheiros jovens, a minha citara foi junto. Dois engenheiros, Dr. Tejo e Dr. Mario, tocavam flauta e eu os acompanhava. Mas não era grande coisa. Quando o destine cruel me roubou o meu fiel companheiro Carlos cedo demais, passei a honrar sempre a minha e a sua citaras, pois através delas eu tinha alcançado e gozado a felicidade de ser sua esposa.

Da idade de 80 para 90 anos, sempre levei a minha citara junto para o veraneio em Torres. Era um passatempo delicioso. Passava as noites tocando e algumas pessoas vinham para escutar a minha musica. Ate hoje sento seguidamente à noite, sozinha, no Porão e toco para mim mesma, pensando como o pouco que sei tocar me alegrou durante a vida, lembrando de quem me ensinou. E para mim ate hoje, na idade avançada em que me encontro, não existe nenhuma arte, nenhum prazer que supere a boa musica.

Quase 90 anos eu a amei fielmente.

18-3-37

Hedwig Textor Trein
Porto Alegre
R. São Rafael N. 843

POST-SCRIPTUM:
Mesmo para Petrópolis, onde Malvina Bartholomay e o marido moravam (ele foi o primeiro diretor de Petrópolis) levei a citara, a cavalo. Era uma longa viagem por São Leopoldo, Linha Nova, etc. Tive que ficar bastante tempo lá por causa da cólera que grassava em Porto Alegre, não podia passar. A minha grande saudade de Santa Cruz eu pude dominar tocando, tocando e melhorando sempre. Citara e um instrumento que tem que ser tocado sempre, senão os dedos endurecem.

SÉRIE NÚMERO 4

MINHA JUVENTUDE NA CHÁCARA

Minha juventude foi muito solitária, em companhia de minha irmã Malvine [Textor Bartholomay]. Clara [Textor von Schwerin] era uma menina muito bonita e freqüentava seguidamente a família Normann. Lá ela conheceu Carl von Schwerin e contratou casamento com ele com 15 anos, casou e se mudou para Santa Cruz [ele era agrimensor].

Tínhamos vizinhos muito distintos: Jose Ricardo Abreu. Duas de suas filhas casaram com os dois irmãos oficiais Salgados, outra com Domingos dos Santos e uma com Masson, avós da família Cirne Lima de hoje. Malvina seguidamente foi convidada pela família de Jose Ricardo de Abreu para bailes e festas bem tradicionais como "Festa de São João" com jantares, fogueira, tirar sorte. Tudo divertimentos nos quais hoje ninguém pensa mais. Durante os 3 dias feriados da "Festa do Espírito Santo" havia lindos bailes no palácio, com fogos, musica, etc. A mãe ia para "Menino Deus" durante os 3 dias da festa de "Reis". Lá havia sobre tablados as "Danças das Jardineiras", cavalhadas e fogos. Tudo era lindo, mas também eram as únicas festas para o povo. Não havia cinemas nem regatas, concertos, etc. Nos adorávamos tudo isto e muito contentes voltávamos para os trabalhos em casa. Como ficávamos contentes quando vinha visita! Como a família Normann ou D. Izalina com Celeste, Carl Jansen e a família. Nunca fiquei sem saber o que fazer. No verão procurávamos ao meio dia gavirobas, pitangas, araeas, que colhíamos em abundância. Em um passeio encontramos um grande formigueiro, com uma vara mexemos bastante, vimos lá dentro umas coisas compridinhas. Tirei algumas, rasguei a cobertura que parecia papel e que susto! Estavam cheias de cobras, pequenas cobras coral. Com certeza a cobra mãe deixou estes lá no formigueiro para serem encubados pelo calor do sol. Como disparei, corri, corri com muito medo de que as cobras viessem atrás de mim, o que não era o caso.

Plantava muitas flores já naquele tempo e com muito pouco colégio, mas sempre estudando sozinha, eu passava o tempo.

Aos poucos fui crescendo.

Meu irmão Carl e as irmãs Clara e Malvina encontraram seus destinos na chácara. Emil e eu, entretanto, em Santa Cruz.

Carl, como já contei, casou com a neta de uma fazendeira rica já bem idosa. Como ela tomou parte na revolução de 1835 com 100 escravos, defendendo sua fazenda, teve um prejuízo considerável. Teria sido uma mulher muito corajosa e braba. Quando a conheci já era muito velha e a cabecinha bem branca, não saia mais de cima de uma cadeira de madeira improvisada que ela chamava de "Minha Marquesa". Sextas-feiras a noite toda a sua grande "negrada" (como ela dizia) tinha que se apresentar para rezar o terço. Emil rezava e cantava com eles. A reza durava muito tempo, pois todos os santos eram lembrados e pedidos feitos a eles. Mas quando os negros cansavam, devido ao trabalho diário, ela tinha uma vara comprida com a qual os animava. Uma vez assisti a isto tudo, mas nunca mais.

No casamento de Carl havia bolo de milho doce, doce de batata e de coco, e abóbora com chá e capilé (suco de framboesa). Carl ficou com a esposa morando na nossa casa, e quando veio o primeiro bebe fui eu quem teve a licença de dar o nome. Como eu tinha acabado de ler o romance "Monte Cristo", dei o nome de Mercedes. Esta criança mais tarde proporcionou muitos episódios em nossa casa e na de outros.

A pedido de Schwerin, Carl mais tarde se mudou para Candelária e lá teve outra filha Alzira e um filho Carl. Faleceu cedo em Candelária. A mulher se mudou para a casa de tias em Porto Alegre. Mais tarde, quando eu já tive recursos, nossa mãe pediu para tomar conta deles. Quando voltei para Santa Cruz já trazia os três comigo. Malvine, que naquela época também já morava em Santa Cruz, ficou com Alzira, a segunda menina, eu fiquei com Mercedes e Jeny Heuser ficou com o menino Carl, que faleceu muito cedo.

Mercedes, que era chamada de Lili, era uma menina bonita, trabalhadeira e fiel. Ao crescer, ela logo teve varies pretendentes. Meu cunhado Otto, o Pedro Castello............. .

Mas então veio o Graf von Wollwitz e ela rapidamente tornou-se sua mulher. Deste casamento nasceram 3 crianças, a menina morreu cedo, Hans mais tarde tornou-se técnico-dentista em Bagé, Germano era meu afilhado e tinha boa índole. Wollwitz descendia de uma família elegante na Saxônia. O velho Graf teria sido médico do rei, o filho Adolf Eiche von Wollwitz tinha, na Alemanha, feito brincadeiras juvenis bobas no serviço militar e seu pai o mandou embora, para se livrar dele com sem orgulho de Graf. Aqui, através de Koseritz, Bartholomay levou-o como secretario para Petrópolis, e nas suas viagens para Santa Cruz ele sempre trazia Wollwitz, que aqui sempre se comportou da melhor maneira possível. Mas financeiramente sua situação não era boa e nunca a sua família perguntou por ele. Infelizmente Wollwitz adoeceu repentinamente e mal tinham buscado o médico, ele faleceu de enfarto de coração. Lili me disse logo: "Titia, eu só tenho em meu poder 5.000 reis". E então? O meu bom Carlos teve de cuidar de tudo para o enterro. Então a nossa salinha foi esvaziada e Lili se mudou com os três filhos para nossa casa. Uma grande herança. Carlos logo escreveu para a Alemanha, para os parentes. Inicialmente sem sucesso, então ele escreveu de novo, a respeito do que seria das crianças com o seu nome, sem educação. Então na Alemanha faleceu o pai, e a mãe mandava mensalmente a quantia de 100 mil reis (tão pouco para 4 pessoas). Apos 4 anos Carlos alugou uma pequena casinha em frente a nossa, e ela se mudou para lá. Carlos continuou pagando o armazém e as despesas. Então morreu uma velha tia na Alemanha e veio uma pequena herança que ajudou. As crianças já estavam na escola. Então se mudou para Santa Cruz um bom dentista italiano, Lili ainda estava bonita e Pagana, este era o seu nome, casou com ela. Sempre foi muito bom para ela, e se mudou em seguida para Bagé onde ganhava muito bem. Mais tarde ela morou em Santa Maria, onde ele também ganhou muito bem. Lili ainda ganhou duas heranças.

Germano economizou muito a sua parte e pode, com isto, ir para Porto Alegre estudar medicina, Germano foi bom e econômico. Quando o seu padrasto faleceu, deixou a viúva com 7 filhos. Então se mudaram todos para Porto Alegre e Germano educou, as suas custas, todos os irmãos. Mais tarde um tio da Saxônia mandou chamá-lo, seu avô teria sido o médico particular do rei. Quando ele estava na Alemanha, estourou a guerra. Ele, como alemão legitimo, teve de ir lutar, e foi preso. Como era médico foi para um hospital e lá ficou ate a guerra terminar. Viajou de volta, casou com sua noiva e voltou para o Brasil. Aqui foi médico em Rio Grande, depois em Bagé. Correspondeu-se seguidamente comigo.


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